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‘Ninguém faz revolução com publicidade, a gente comunica e reduz danos’

Fonte: Propmark

3 de junho de 2022

Nátaly Neri é criadora de conteúdo há sete anos e, ao PROPMARK, conta sua trajetória na internet e a importância da luta pelo meio ambiente

Nátaly Neri é uma influenciadora que carrega consigo diversas bandeiras. Negra, LGBTQIAP+, vegana e que luta pelo meio ambiente, a criadora de conteúdo também é formada em Ciências Sociais e conciliou, por alguns anos, o trabalho com a internet, suas lutas e a graduação.

O canal criado em 2015 e, atualmente com mais de 39 milhões de inscritos, nasceu da vontade de Nátaly em ensinar e de passar as informações que tinha para frente. Com vídeos que passam por temas como consumo consciente, veganismo, slow fashion, rotina, comentários sobre séries/filmes e até resenhas de maquiagem, tudo se liga em duas palavras: autenticidade e intenção.

Carregar tantas bandeiras consigo fez com que a relação da influenciadora com as marcas tivesse que passar por uma peneira restrita e que ela fosse vista, pelo menos por um período, como uma pessoa polêmica.

Quando questionada sobre a importância dos influenciadores nas campanhas publicitárias sobre a luta do meio ambiente, Nátaly foi categórica: “ninguém faz revolução com publicidade. A gente comunica e reduz danos”

Ao PROPMARK, Nátaly conta a sua trajetória na internet, suas lutas e qual é a importância dos influenciadores na luta pelo meio ambiente.

Como começou a sua trajetória na internet?
Eu estava em um momento de encontrar algo que eu realmente queria fazer. Eu estava à procura de algo que me empolgasse de novo, me desse frio na barriga sabe? Eu já estava a três anos na graduação de ciências sociais e me frustrei com a academia. Eu sempre tive vontade de criar conteúdo, mas nunca tive sobre o que falar, sempre me perguntava sobre o que eu falaria se criasse um canal e, três anos depois, percebi que tinha muito o que falar e passar pra frente.

Como você fez para conciliar produzir conteúdo para a internet com a graduação?
Quando eu comecei a criar conteúdo durante a faculdade, eu percebi que estava em um lugar que já estava muito aquecido. Um mercado financeiramente aquecido, que já tinha muitas regras, já tinha seus próprios ídolos, suas comunidades… Eu cheguei em uma coisa que já estava pronta e eu achava que era isso, ela estava pronta e acabada mas não, ela estava se moldando. Foi muito difícil a graduação competir com isso porque era um mundo de possibilidades, possibilidades de falar com muita gente sobre as coisas que eu acreditava, possibilidade de ganhar um dinheiro que eu nunca tinha imaginado ganhar nem depois do meu doutorado — talvez depois do doutorado sim. Eu voltei todas as minhas energias para internet quando eu vi que estava certo, mas eu tinha um apego muito grande a graduação e por isso eu não abandonei. A única coisa que eu fiz foi desacelerar, tanto que eu me formei 9 anos. Foi difícil e atrapalhou a minha criação de conteúdo, porque eu tive que parar mais de 1 mês para escrever um TCC na velocidade da luz para não perder a minha vaga, mas deu certo.

Como começou o seu relacionamento com a Dia Estúdio?
Eu acompanhava a Dia há muito tempo. Conheci o trabalho deles por causa do trabalho da Louie Ponto, que era um canal que eu tinha como referência e sempre gostei. Eu comecei a perceber o quanto eles eram dedicados, engajados em projetos e a gente acabou tendo o primeiro contato em uma Parada do Orgulho LGBTQIA+, que foi há uns 3 ou 4 anos e eu fui convidada para fazer uma pequena pontinha e eu me encantei com as pessoas. Depois, eu fui convidada na seguinte, como uma mulher pansexual para conversar sobre as minhas vivências, debater as questões da comunidade e foi uma experiência incrível. Fui chamada, um pouco antes disso, para fazer parte da rede, mas eu ainda não era exclusiva da Dia, então eu fazia o meu trabalho comercial e de desenvolvimento do canal à parte. Depois de entender como a Dia funcionava, eu entendi que fazia total sentido eu estar com eles. Foi a melhor escolha que eu fiz para a minha carreira, porque eu estou conseguindo alcançar um equilíbrio que durante 5 anos eu não tive na produção de conteúdo.

Com o passar do tempo, as marcas começaram a prestar mais atenção em você. Quando e qual foi a primeira publicidade que você fez?
Olha, o primeiro trabalho que eu fiz foi para o YouTube. Fui chamada para um projeto chamado YouTube Mulheres e em 2016 ou 2017, não me lembro ao certo, eles me chamaram pra fazer um projeto muito parecido, mas como a host, que era o Youtube Negro, então foi a primeira vez que eu tive um trabalho pago.

A partir disso, o meu canal cresceu muito rápido é e as coisas aconteceram também financeiramente. Claro que, na época, com muito mais dificuldades do que a gente tem hoje, porque eu era vista como uma pessoa polêmica, já que na época, as marcas e o mercado publicitário não tocavam nesses assuntos de diversidade, sustentabilidade etc. Ele tocava com muita superficialidade, não que esteja profundo hoje, mas hoje em dia existe um mercado que olha para a diversidade, existe um discurso que a gente sabe que no fim do dia é sim sobre lucro e dinheiro, mas que cedeu as reclamações, principalmente as demandas dessa população que quer ser vista. Quando eu comecei, isso não estava estabelecido ainda, então apesar de ter havido possibilidades, elas eram muito engessadas e tentavam sufocar completamente o meu discurso político. Demorou para conseguir me estabilizar financeiramente.

Você participa dos roteiros das campanhas que faz?
Não necessariamente. No começo, quando as coisas eram bem mais caóticas e problemáticas e não tínhamos pessoas conscientes trabalhando em agências e marcas, era mais difícil. Hoje em dia, eu trabalho com alguns, cocriando a minha parte. Então, no começo, esse trabalho de analisar e olhar junto era até exaustivo e chegou um momento em que a própria comunidade de criadores começou a reclamar sabe? Porque não somos nós que temos que criar esses roteiros. As empresas que precisam ter pessoas negras, LGBTQIAP+, mulheres, indígenas etc trabalhando, desenvolvendo essas campanhas, essas conversas. Atualmente, na maior parte dos casos, eu tenho a sorte de receber campanhas, conversas e roteiros pensados pelos próprios autores, então se eu vou fazer uma campanha sobre negritude e vou em uma reunião, tem uma galera preta na agência pensando. Eu sei que isso ainda é raro e que, muito provavelmente, são aqueles um, dois ou três pretos que pegam todos os projetos sobre diversidade, mas já é muito diferente do que era antes.

Como você define a marca Nátaly Neri?
A marca Nátaly Nery é específica, ela tem os seus limites de produção, suas tentativas e objetivos de discurso, ela quer falar com um grupo específico, foi pensada em uma linguagem específica e ela tem propósitos que estão ligados a questões socioambientais, fundamentalmente, e que buscam, no fim do dia, autonomia e intenção. Então a marca Nátaly Nery se alimenta e coexiste com a pessoa Nátaly Neri, que não tem os mesmos limites da marca, que não tem equipe em propósitos muito mais amplos do que a marca, porque apesar de eu acreditar muito no potencial e na força do meu discurso e da minha presença como uma marca na internet, eu entendo o limite dela e sei que a marca e o discurso sozinhos não vão a lugares tão longes quanto os que eu acredito que a gente possa ir trabalhando coletivamente. Por ser uma marca dentro da publicidade, ela age da melhor maneira que pode, com proposito e intenção. Ela tem capacidade de transformação, mas dentro de um mercado que, por si só, é limitado.

Você é vegana e fala sobre isso no seu canal. Como isso influência no seu relacionamento com as marcas na hora de fechar uma publicidade?
Hoje em dia, eu e a minha equipe nos sentamos para fazer as validações e mais da metade é negada. Eu não trabalho, principalmente, com marcas que façam testes em animais, então por mais que a marca tenha uma pegada mais sustentável, se ela faz teste em animais, eu não faço. Eu também pesquiso muito para entender as polêmicas com as marcas. Já vi muitas marcas ligadas a sustentabilidade, mas tem vários escândalos de crimes ambientais. Hoje, nós temos um filtro. Se a marca testa em animais, corta, se a marca está envolvida em alguma polêmica ambienta, corta, se a marca está envolvida em polêmicas racistas e/ou LGBTQIA+fóbica, corta, se a marca nunca falou sobre algum tipo de diversidade, corta, se a marca nunca falou na vida sobre sustentabilidade, corta. É importante analisar tudo isso, precisamos tomar muito cuidado para não me envolver e falar sobre marcas e empresas que só estão começando e não sabem para onde estão indo.

Como uma mulher, negra, pansexual, vegana e que fala de sustentabilidade, você carrega muitas bandeiras com você. Acontece de as empresas te olharem só por elas?
Sim e esse foi um exercício intencional. Eu acho que, no começo, quando eu não tinha os temas tão ligados a sustentabilidade 100% do tempo, as marcas me traziam como a mulher negra e isso é até injusto, porque eu sou uma mulher negra em um determinado recorte. Eu sou uma mulher negra LGBTQIAP+, eu sou uma mulher negra de pele clara, eu sou uma mulher negra magra… Existem outras possibilidades de existência que não são contempladas na minha e isso veio muito quando o discurso de representatividade estava no auge, então as marcas faziam um “check list” da diversidade. Eu comecei a me sentir incomodada em perceber que eu era muito mais uma imagem do que um discurso, então começamos a cortar projetos ou conversas que enfatizavam única e exclusivamente o fato de eu ser negra. Começar a fazer esses paralelos foi um esforço intencional de negar trabalhos em momentos que eu não podia financeiramente negar, mas, se esse movimento não é feito intencionalmente, ele não acontece e o pessoal começa a achar que você sempre vai ser o “check” da diversidade, quando na verdade, somos muito mais do que isso.

Não faz muito tempo que começamos a ver campanhas de empresas falando sobre meio ambiente, ESG e sustentabilidade. Como você enxerga esse movimento?

Eu acho que as empresas são muito voltadas com o que a ONU estabelece com as décadas e os discursos. A década passada foi sobre igualdade racial e as marcas estavam falando sobre isso. Essa é a década das Nações Unidas de restauração de ecossistemas, então eu tenho como teoria que essa é a única base, porque até um tempo atrás, a gente só falava de negritude e, hoje em dia, apesar desse tema ainda vir, ele não vem mais com tanta força. Nós estamos vivendo uma emergência climática e não tem como se isentar dessas discussões, não tem como não olhar para isso uma vez que o empresariado mundial é um dos grandes responsáveis pela exploração e degradação do meio ambiente. É como se você entrasse em uma sala e visse milhares de pessoas falando sobre um grande problema e soubesse que elas estão falando sobre você, soubessem que você é um dos grandes responsáveis pelas emissões de carbono, por crimes ambientais, por uma série de problemas que poderiam ser reduzidos se as formas de consumo também fossem repensadas. Então, eu acho que a indústria, num geral, começou a sentir a mea culpa e perceber que tem muitos dedos ali. Se existe um ponto geral, é que as pessoas estão entendendo que está na hora de comunicar. É o momento de botar a mão na consciência.

Qual é a sua opinião sobre essas campanhas de sustentabilidade das empresas?
Eu acho que é importante termos um olhar crítico quando vemos essas campanhas. Eu recebo muita coisa aqui em casa de marcas que lançam um produto que é sustentável, mas quando você passa na frente da loja um dia, vê que aquilo não tem nada a ver com o que enviaram. Eu tenho visto muito isso acontecer com marcas de luxo e marcas grandes. Elas têm desenvolvido linhas de material ecológico, feitas de garrafa pet, etc. Eu fico revoltada porque eles têm tecnologia e sabem como fazer isso em larga escala e podem fazer, mas não querem. Então, ao invés de mudar toda a linha e usar só material reutilizável, eles vão continuar matando os animais para usar couro, por exemplo. Estamos em um momento em que se tem pesquisado, por mais que pouco por falta de incentivo, e que as marcas conseguem fazer um produto apelativo e atrativo para o consumidor. Tudo depende da intenção, do investimento e, no momento, isso não é mais interessante do que o lucro das empresas.

Qual você acha que é a importância dos criadores de conteúdo na luta e nas campanhas publicitárias pelo meio ambiente?
Ninguém faz revolução com publicidade, a gente comunica e reduz danos. O meu papel pessoal é falar com as pessoas que estavam nos mesmos lugares em que eu estava sendo uma mulher, negra, LGBTQIAP+… As pessoas acham uma coisa não está ligada a outra, mas está. Ter a consciência de que os maiores afetados são os que já são afetados socialmente, como as minorias, é de suma importância entender que essa conversa é sobre a gente, porque quem não será afetado é quem está causando essas destruições e não pensa nos impactos negativos. Eu acho que esse é o meu papel e de várias outras pessoas que falam sobre essas questões e estão ligadas a outras bandeiras. A gente poderia falar só sobre o que bate primeiro na gente, mas é importante termos a consciência de que não é porque não existe dentro da gente, que não nos afeta. Ao adquirir consciência, autoconsciência, consciência social, você percebe que as lutas são indissociáveis, então quando eu entendo a violência direcionada a corpos pretos, eu entendo que no cerne disso tem a superioridade branca que acredita que é maior e melhor que qualquer outro diferente de si e consigo compreender um discurso ligado a libertação animal, que coloca o especismo no centro da conversa, entendendo que sim, se hoje a gente olha para os animais com inferioridade e como itens para a gente usufruir, é porque existe uma superioridade humana, que acredita que tudo aquilo que não é como a gente está no mundo para nos servir e podemos explorar. É por isso que estamos acabando com o planeta, com a vida animal e com o ambiente em um geral porque a gente não vive em equilíbrio.

Confira matéria no Propmark

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