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Especialista em desinformação alerta: não basta mais só checar dados

Fonte: Uol

25 de julho de 2022

O neto de 8 anos de uma amiga se espantou quando eu disse que precisava estudar para uma prova. “Você ainda estuda?”, ele perguntou. Parecia horrorizado. Imaginei que tenha parado para considerar um futuro terrível, em que ele estaria condenado a ser aluno das salas de aula de sua escola pelo resto da vida.

Acontece que sou uma daquelas pessoas bem otimistas que, durante a quarentena, decidiu fazer do limão uma limonada. Já que vou ficar trancada em casa… Me matriculei, muito feliz, em um curso de pós-graduação online. Então, sim, eu ainda estudo. Fake news e desinformação são assuntos que me interessam.

Por esse motivo, solicitei uma conversa com o jornalista Raphael Kapa, coordenador de Educação da Lupa, especialista no tema. Em 2015, a Lupa, que conta com parceria tecnológica do UOL, foi criada para ser uma agência de checagem de notícias. Hoje, Raphael explica, o posicionamento mudou: ela é uma central de combate à desinformação. Como veremos na entrevista a seguir, apenas checar a informação não é mais suficiente.

Em relação aos perigos das fake news, você está mais preocupado hoje do que em 2015, quando participou da abertura da Lupa?

Sim. Em 2015, nós falávamos que queríamos melhorar o debate público. Naquela época, nosso objetivo era mostrar o melhor dado sobre o que era dito, o mesmo objetivo de muitas outras agências de checagem ao redor do mundo. Mas, depois de Donald Trump, o termo fake news foi elevado a outro patamar, extrapolando em muito a questão da notícia falsa ou verdadeira apenas. Por isso, já nem usamos a expressão fake news, preferimos falar de desinformação. Além da checagem de um dado, nós hoje vemos a necessidade de nos posicionarmos editorialmente. Precisamos chamar a atenção para o fenômeno da desinformação e incentivar estratégias para combatê-lo.

Não basta checar e divulgar dados, certo? Como você avalia a insistência do presidente Jair Bolsonaro em divulgar informações falsas sobre o sistema de votação eletrônica?

Infelizmente, é quase uma involução das campanhas eleitorais. Mais do que o ataque de candidatos a outros candidatos, o que vemos nessa campanha é o ataque ao próprio sistema eleitoral. É nisso que está centrado o sistema de desinformação desta vez.

Alguma chance de reação a esse sistema?

Não gosto de fazer previsões. Mas, diferentemente dos Estados Unidos, onde Trump também disseminou desinformação sobre o sistema eleitoral, no Brasil temos especificidades que nos beneficiam. Nossa eleição é direta, não temos delegados ou representantes. É o voto individual que elege o vencedor rapidamente. Também temos tradição no voto eletrônico. Além desses fatores, o Tribunal Superior Eleitoral tem reagido bem, ele aprendeu com as últimas eleições e se preparou. Lançou uma campanha de esclarecimento e demonstrou agilidade para reagir ao ecossistema da desinformação.

Como esse ecossistema funciona? Uma agência como a Lupa consegue mapear como nasce e se dissemina uma desinformação?

Existe uma articulação inicial. Essa articulação catalisa o tema, lança mão de ferramentas, de bots etc… A jornalista Patrícia Campos Mello explicou bem como isso funciona. [No livro “A Máquina do Ódio, Notas de uma Repórter sobre Fake News e Violência Digital”.] Mas a gente não pode desconsiderar que a indústria da desinformação sempre gera novos desinformadores, agentes que passam a replicar, a repetir e a resgatar conteúdos sobre o tema inicial de forma autônoma. Nesse caso das urnas eletrônicas, por exemplo. A cada vez que o assunto volta à tona, não importa tanto que ele já tenha sido esclarecido pelas agências de checagem, pela imprensa e pelo Tribunal Superior Eleitoral. Muitas pessoas vão compartilhar o conteúdo equivocado, vinculá-lo a conteúdos antigos e gerar uma nova onda de desinformação.

Nesse ponto, a desinformação fica quase incontrolável...

Na verdade, o objetivo de uma articulação como essa é que se chegue mesmo a esse ponto da disseminação autônoma em todas as plataformas: lives no YouTube, correntes do WhatsApp, vídeos no TikTok. Cria-se um episódio para que ele passe a se reproduzir espontaneamente. Vídeos mentirosos começam a ser resgatados, produções antes descartadas voltam a ser acionadas.

Qual a diferença entre o candidato Jair Bolsonaro e seus competidores nessas eleições?

Todo candidato traz algum grau de fake news, erros e exageros nas campanhas. Ele pode aumentar o número de casas que diz ter construído, por exemplo, ou diminuir a realização do concorrente. Bolsonaro também faz isso. Mas ele certamente se diferencia dos outros pela sua forte presença em temas que trazem a desinformação sistemática, como é o caso do ataque ao sistema eleitoral do país.

E a desinformação na pauta de costumes também é um diferencial, não acha?

Imagino que sim. Claro que enxergamos desinformação nas pautas morais, mas não temos como checar de forma objetiva utilizando as ferramentas puramente jornalísticas, como fazemos em relação a um dado exato.

Como você enxerga o papel das plataformas de mídias sociais no combate ou na disseminação da desinformação?

Algumas plataformas vêm percebendo que a desinformação é ruim para elas. Caso do Facebook, por exemplo, que depois de um longo processo de desgaste, passou a investir no monitoramento das fake news e no apoio a iniciativas de checagem. Já o YouTube ainda está muito incipiente em sua política de contenção de desinformação.

Quais mídias sociais tornam mais difícil o monitoramento de fake news?

O WhatsApp pode ser um grande desinformador, mas não temos como medir porque se trata de um aplicativo de mensagem. Twitter e TikTok são mídias, mas é muito difícil monitorá-los.

O que é possível fazer para combater a desinformação nessas plataformas, então?

Às vezes iniciativas simples têm resultado impressionante. Gifs esclarecedores funcionam bem em mensagens de WhatsApp. Por exemplo: um gif que mostra como uma foto foi adulterada é bastante eficiente. No TikTok, que tem um público mais jovem, fizemos uma série, uma campanha de combate à desinformação, que teve resultado excelente.

Qual geração é mais vulnerável à desinformação?

Não temos dados sobre isso. Porém, sou da opinião que damos muita luz à terceira idade nesse aspecto, imaginando que eles compartilham tudo que recebem. Precisamos lembrar que essa geração foi a que mais aprendeu o que é jornalismo, imprensa, veículos de notícia. As gerações mais novas talvez não saibam diferenciar uma notícia de fonte segura de uma informação qualquer.

No começo da entrevista, você disse que não basta só checar dados, é preciso incentivar a desinformação de outras maneiras. Quais maneiras?

Nós acreditamos que temos de ir além do jornalismo, ir para a educação, o letramento midiático. As pessoas precisam ter acesso a ferramentas, legislação e regras que possam ajudá-las a enxergar a diferença entre opinião e informação com base científica. Além disso, outros atores, como governo e empresas de tecnologia, precisam se responsabilizar e assumir papéis no combate à desinformação.

Confira matéria no UOL

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